Os dias 11 de fevereiro e 8 de março são datas simbólicas na luta pela igualdade de gênero. Enquanto em fevereiro é celebrado o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, pouco menos de um mês depois o mundo comemora o Dia Internacional da Mulher.
Mais do que celebrações, esses momentos também servem para promover reflexões sobre desafios históricos, como o combate à desigualdade de gênero e à violência contra a mulher, a sub-representação feminina em espaços de poder e o incentivo à participação das mulheres em profissões que, por muitos anos, foram predominantemente ocupadas por homens.
Um exemplo de como iniciativas simples podem contribuir para essa conscientização vem da cidade de Cafarnaum, localizada no semiárido baiano, no território de identidade de Irecê. No Colégio Estadual de Tempo Integral Imaculada Conceição, as estudantes Francine Araújo e Ticiane Araújo, orientadas pelos professores Diogo Pires e Elaine Montino, criaram o álbum de figurinhas “As Cientistas Incríveis”
A proposta nasceu a partir de debates sobre gênero realizados no clube de ciências da escola. Segundo os professores, a iniciativa surgiu da observação de dois fatores recorrentes: o desinteresse de muitos jovens pelas áreas STEAM — sigla para Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática — e a baixa representatividade feminina nos materiais didáticos e nas referências apresentadas em sala de aula.
“Diante disso, pensamos em criar uma ferramenta lúdica e acessível que unisse popularização da ciência, protagonismo estudantil e valorização das mulheres cientistas”, explicam os docentes.
A estudante Francine Araújo conta que a construção do álbum exigiu várias etapas de pesquisa. “Tivemos fases fundamentais para avançar com o projeto, como o estudo bibliográfico sobre popularização da ciência, gênero e desigualdades nas áreas STEAM, a definição dos critérios de seleção das cientistas e a produção de textos biográficos acessíveis e ilustrados”, relata.
A partir desse processo, foram selecionadas 24 cientistas para compor o álbum. A lista contempla diferentes nacionalidades, áreas do conhecimento e trajetórias, reunindo tanto pesquisadoras históricas quanto contemporâneas. Entre os destaques está a biomédica baiana Jaqueline Goes, que liderou a equipe responsável pelo sequenciamento do genoma do coronavírus (SARS-CoV-2) no Brasil em apenas 48 horas, no início da pandemia de COVID-19, em 2020. Também fazem parte do álbum cientistas como Ester Sabino, Katherine Johnson e Bertha Lutz.
Orgulhosa do reconhecimento do projeto, que foi destaque no Encontro Estudantil da Rede Estadual da Bahia, Ticiane Araújo explica como funciona a dinâmica do álbum.
“Cada estudante recebe um exemplar. As figurinhas são conquistadas por meio da participação e do engajamento em atividades pedagógicas. Em parceria com a biblioteca escolar, por exemplo, a cada livro lido a estudante recebe um pacote de figurinhas. Se o livro for de autoria feminina, ela ganha dois pacotes, valorizando também a produção intelectual das mulheres”, afirma.
A professora Elaine Montino, coorientadora do projeto e mestre em Ciências Ambientais pela Universidade Estadual de Feira de Santana, acredita que a iniciativa cumpre um papel importante no ambiente escolar. Segundo ela, a troca de figurinhas entre os estudantes fortalece a interação social, estimula o diálogo e promove o sentimento de pertencimento.
“Cada figurinha traz informações acessíveis sobre a trajetória e as contribuições das cientistas, ampliando o repertório dos estudantes e incentivando reflexões sobre ciência e igualdade de gênero. Assim, o álbum une o prazer do colecionismo à intencionalidade pedagógica”, explica.
Para o professor Diogo Pires, mestre em Educação Científica pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, o projeto também reforça a importância de envolver toda a comunidade escolar na discussão sobre igualdade de oportunidades.
“Historicamente, os espaços científicos foram marcados por desigualdades. Enquanto professor e homem, reconheço minha responsabilidade ética e pedagógica em trabalhar temas como gênero e representatividade na ciência. Não se trata apenas de incentivar meninas, mas de educar meninos e meninas sobre a importância da igualdade de oportunidades”, afirma.
Com a repercussão positiva da iniciativa, as estudantes e os professores já planejam os próximos passos do projeto. A ideia é buscar parceiros e apoiadores para ampliar a tiragem do álbum, permitindo que estudantes de diferentes regiões da Bahia tenham acesso ao material e possam aprender de forma lúdica com o projeto “As Cientistas Incríveis”.
Fonte: Bahia.ba


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