O Brasil caminha a passos lentos em direção Ă universalização do mercado livre de energia. Segundo o ranking mais recente da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel), este ano, o paĂs ficou na 47ÂȘ posição em uma lista de 56 paĂses onde hĂĄ algum tipo de autorização para os consumidores escolherem o prĂłprio fornecedor de energia. Em 2019, o Brasil estava na 55ÂȘ posição.
O ranqueamento feito pela Abraceel considera o nĂvel de liberação do mercado de energia, com base nos dados do relatĂłrio anual da AgĂȘncia Internacional de Energia (IEA). Dessa forma, os 35 primeiros colocados concedem a todos os tipos de consumidores, independentemente do porte ou categoria, o direito de escolher o fornecedor de energia elĂ©trica.

O vice-presidente de EstratĂ©gia e Comunicação da Abraceel, Bernardo SicsĂș, afirma que o Brasil tem condiçÔes de estar entre os primeiros colocados do ranking.
“Caso o Brasil jĂĄ tivesse um mercado livre de energia elĂ©trica para todos os consumidores, inclusive os consumidores residenciais, estarĂamos na quarta posição. NĂłs nĂŁo vemos razĂŁo para o Brasil estar nessa posição e acreditamos que chegou a hora de colocarmos o consumidor brasileiro no topo desse ranking global.”
Entenda o mercado livre de energia
Hoje no Brasil, o mercado livre de energia Ă© um espaço onde somente os grandes consumidores podem negociar livremente a compra de eletricidade. O professor de Engenharia ElĂ©trica da Universidade de BrasĂlia (UnB) Ivan Camargo explica que o modelo, criado na dĂ©cada de 90, foi abrangendo outros tipos de consumidores ao longo dos anos.
“No inĂcio ele foi feito apenas para os grandes consumidores, que tinham uma carga da ordem de trĂȘs megawatts. Hoje jĂĄ sĂŁo muito mais consumidores que tĂȘm essa possibilidade de comprar energia de quem quiser, nĂŁo apenas da sua distribuidora. E a tendĂȘncia jĂĄ aponta que, em pouco tempo, todos nĂłs seremos consumidores livres, ou seja, em vez de comprar energia da nossa distribuidora, poderemos escolher quem serĂĄ o fornecedor de energia para nossa casa.”
Entre 2018 e 2019, o MinistĂ©rio de Minas e Energia reduziu os limites de carga para os consumidores comprarem no mercado livre. AtĂ© 2019, somente aqueles com demanda superior a 3.000 kW tinham o direito de escolher o fornecedor de energia. Anualmente esse valor diminuiu, atĂ© que em 2023 ficou estabelecido o valor mĂnimo de 500 kW. Em 2024, o mercado livre estarĂĄ disponĂvel para todos os consumidores do grupo tarifĂĄrio A, de mĂ©dia e alta tensĂŁo.
Apesar do avanço, essa barreira poderia ter sido eliminada hå 20 anos, jå que a lei 9.074 de 1995, estabeleceu - entre outras normas - que a União poderia promover a abertura completa do mercado de energia elétrica 8 anos após a promulgação da lei, ou seja, em julho de 2003.
Segundo Bernardo SicsĂș, esse atraso de 20 anos pode significar grandes perdas para a economia e competitividade do paĂs. “Em um cenĂĄrio hipotĂ©tico, se todos os consumidores tivessem o direito de escolher e decidissem optar por comprar no mercado livre de energia elĂ©trica, a economia agregada seria de R$ 35,8 bilhĂ”es por ano, incluindo 5 milhĂ”es de residĂȘncias de baixa renda. Ou seja, esse atraso retira a competitividade do paĂs e prejudica o consumidor, que poderia se beneficiar com preços mais baixos e melhores serviços”.
Projeto de lei em andamento
A universalização do mercado livre de energia pode estar mais próxima de acontecer no Brasil com a tramitação do projeto de lei 414/2021. O texto estabelece o marco legal do setor elétrico e tem, entre as principais propostas, a expansão do mercado livre para os consumidores de todos os portes.
Se aprovado, na prĂĄtica, um consumidor residencial ou uma pequena empresa poderĂĄ escolher de quem comprar energia, da mesma forma que escolhe a operadora de internet e telefonia mĂłvel.
Segundo o deputado federal Domingos SĂĄvio (PL-MG), a medida vai beneficiar o consumidor brasileiro que paga caro na conta de luz.
"Os benefĂcios da modernização da legislação do setor elĂ©trico, ou Marco Legal do Setor ElĂ©trico, devem ser para toda a população brasileira, mas principalmente para o consumidor final, que hoje paga uma conta de energia muito alta, principalmente aquele chamado consumidor cativo, que nĂŁo tem outra alternativa.”
O vice-presidente de Estratégia e Comunicação da Abraceel explica como o mercado livre de energia pode baratear as contas de luz do consumidor comum.
“Temos visto anĂșncios em que o consumidor pode se beneficiar de preços atĂ© 30% mais baixos no mercado livre de energia elĂ©trica. Isso Ă© impulsionado pela concorrĂȘncia, pois no mercado livre as empresas competem pelo consumidor final, buscando oferecer melhores preços e serviços.”
Para o deputado Domingos SĂĄvio, a aprovação do marco legal tambĂ©m pode promover segurança jurĂdica e atrair novos investimentos para o setor elĂ©trico do paĂs.
“Se nĂłs nĂŁo investirmos rĂĄpido na geração de mais energia e modernização de todo o nosso sistema elĂ©trico, o Brasil pode em pouco tempo encontrar um grave problema de fontes de abastecimento de energia. Eu estou falando de apagĂŁo, de risco de nĂŁo termos energia disponĂvel para as demandas existentes. Para conseguirmos melhorar a qualidade de vida do nosso povo, nĂłs temos que crescer e temos condiçÔes para crescer; mas para isso Ă© preciso energia.”
O PL 414/2021 ainda estå em tramitação na Cùmara dos Deputados e aguarda a criação de Comissão Temporåria pela mesa. *Brasil 61


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